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Os casos clínicos de Winnicott

 A obra de Winnicott contém muitos e variados tipos de casos clínicos, aos quais se somam inúmeras vinhetas que dão tanta riqueza aos seus textos. Além do interesse imediato que o material dos casos possa suscitar no leitor, profissional ou leigo, será que existe um roteiro de acordo com o qual esses relatos foram elaborados? Os casos clínicos de Winnicott seriam estruturados de acordo com um conjunto de ideias-guia, emprestadas da sua teoria?
Surgem ainda umas outras perguntas: por que tantos casos em Winnicott? Qual é o uso que ele esperava deles? Antes de tentar responder, lembro que os casos clínicos são parte constitutiva da literatura profissional em psicanálise e em outros campos de saúde mental. Freud tomou todo cuidado em ilustrar clinicamente e de modo detalhado vários aspectos da sua interpretação edipiana da psicopatologia humana, embora recorresse também à literatura, mitologia e narrativas religiosas. Diferentemente de Freud, Jung ilustrava suas ideias clínicas quase exclusivamente pela literatura e mitologia. Em Klein, o material clínico recupera o lugar central. Em Fairbairn é escasso, em Bion, não passa de vinhetas; em Lacan, com exceção do caso Aimée, a literatura e a religião ocupam quase toda a cena. Em Kohut, a clínica fica estiolada no meio de abstrações. Por que tantos casos tão minuciosos em Winnicott?
Buscarei a reposta a essas perguntas com a base na interpretação da obra de Winnicott que estou elaborando com Elsa Oliveira Dias desde 1995. Segundo essa interpretação, Winnicott operou uma mudança revolucionária na teoria e no tratamento de problemas não físicos de saúde. Ele não concebe mais esses problemas como mentais, como disfunções do aparelho psíquico, e os redefine como desvios ou mesmo paradas do processo de amadurecimento emocional e pessoal, distúrbios a serem tratados pela facilitação da retomada do amadurecimento. Para familiarizar o leitor com suas ideias teóricas e seus procedimentos de radical novidade, ele recorreu sistematicamente aos exemplos ilustrativos.
O meu propósito aqui não é, portanto, histórico. Estou chamando atenção para Winnicott que exemplifica clinicamente a sua teoria da saúde como amadurecimento segundo a idade, a sua patologia como teoria da imaturidade, a sua clínica como facilitação da retomada do amadurecer. E, enfatizo, Winnicott procede assim para ensinar, guiar a pesquisa e ajudar no tratamento.
Faço notar que os casos clínicos de Winnicott são a pedra angular da formação winnicottiana oferecida pelo IBPW, ocupando 1/3 do tempo de formação.
O estudo dessa parte da obra de Winnicott pede um leitor sóbrio. De fato, quando comparados com relatos de muitos outros psicanalistas, observa-se facilmente o que os casos de Winnicott não são. Eles não são:
1) Simples narrativas de episódios da vida ou do tratamento de pacientes.
2) Contos das 60.000 sessões (de Winnicott).
3) Encenações (mise-en-scènes) que visam a envolver e seduzir o leitor.
4) Ficções, narrativas forjadas
5) Peças de divertimento ou entretenimento.
6) Dramalhões feitos às custas do paciente, que deixam o leitor de coração partido.
7) Análises de obras literárias, peças de teatro, filmes, novelas ou séries.
8) Análises de mitos ou de fantasiações religiosas.
9) Oportunidade para voyeurismo do leitor (deliciar-se com as sessões de terapia assistidas pelo buraco da fechadura).
10) Ocasiões para o exibicionismo de esperteza.
11) Posts de marketing.
12) Peças de militância teóricalínica, religiosa ou ideológica.
Essa lista poderia ser muito mais longa e mais detalhada.
O que são, então, os casos clínicos de Winnicott? São relatos científicos, de ciência aplicada. Tratam da atividade terapêutica de Winnicott em vários campos de tratamento de saúde, isto é, de resolução de problemas de amadurecimento pessoal, portanto, não de caráter físico, (embora possam envolver o lado somático) alcançados por procedimentos especificados por Winnicott. Dirigem-se aos profissionais, aos estudantes e aos leitores interessados nas áreas de pediatria, psiquiatria infantil, psicanálise e serviço social, entre outras.
Enfatizo, servem ainda de
1) ilustrações de conceitos principais da teoria do amadurecimento (seus períodos e estágios), da patologia maturacional (em particular, de conceitos de diagnóstico e de etiologia maturacional) e da clínica maturacional (o contexto, os procedimentos e o percurso do tratamento).
2) modelos a serem usados no ensino, na pesquisa e no tratamento.
Os relatos de Winnicott podem ser vistos como exemplares kuhnianos. Segundo Kuhn, a ciência empírica é uma atividade de resolução de problemas de um certo campo e tipo de dados. Essa atividade é guiada por matrizes disciplinares e soluções exemplares de problemas do campo – os exemplares paradigmáticos.
Os exemplares paradigmáticos são usados:
1) como soluções exemplares de problemas exemplares,
2) como ilustrações das matrizes disciplinares, a saber, as teorias-guia e dos procedimentos,
3) como modelos para novas pesquisas,
4) no ensino,
5) como base das aplicações (engenharia, medicina etc.).
Observa-se facilmente que os casos clínicos de Winnicott se encaixam na descrição de Kuhn.
Um estudo comparativo mostra que os exemplares winnicottianos, embora não tenham a mesma articulação conceitual explícita, nem a mesma riqueza de dados, ilustram, se não todos, então ao menos alguns dos seguintes itens
1) Lugar do caso na obra de Winnicott
2) Fatos do caso
3) Ambiente familiar e social
4) Principais figuras do ambiente
5) A pessoa do paciente
6) Sintomas
7) Diagnóstico
8) Prognóstico
9) Etiologia
10) Setting ou settings terapêuticos
11) Terapeuta ou terapeutas
12) Relacionamento terapêutico
13) Procedimentos de tratamento
14) Processo de tratamento: sua dinâmica e etapas
15) Resultados terapêuticos
16) Resumo do caso
17) Resultados teóricos
18) Acompanhamento posterior.
Num próximo texto, apresentarei uma reconstrução do caso Patrick de Winnicott elaborada, em colaboração com Claudia Dias Rosa, de acordo com a estrutura aqui especificada. Espero poder mostrar que esse caso exemplifica todos os 18 itens da estrutura, podendo ser visto como um exemplar paradigmático particularmente instrutivo da teoria e da clínica de Winnicott.
Z. Loparic
13 de maio de 2021

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