Apresentação
A família, tenha ela a configuração que tiver, é um elemento indissociável dos processos de acolhimento e de adoção, seja porque, de um lado, e, por inúmeras razões, ela não pôde cuidar de seus filhos, seja porque, de outro lado, ela surge como possibilidade de acolhimento, de pertencimento e de desenvolvimento.
D. W. Winnicott elaborou uma teoria do processo de amadurecimento emocional saudável. De acordo com esse autor, herdamos uma tendência inata ao amadurecimento, cuja realização depende de um ambiente suficientemente bom. É exatamente neste ponto que a família ganha relevância, por ser o ambiente onde a criança nasce e no qual, quando tudo corre de modo suficientemente bom, ela pode encontrar as condições necessárias para o seu desenvolvimento emocional. Todavia, isso pode não ocorrer, e a tarefa, então, é a de encontrar outro ambiente no qual a criança possa encontrar tais condições. Isso pode ocorrer de maneira satisfatória, pode ocorrer de maneira insatisfatória ou até mesmo não ocorrer.
A família tem centralidade em muitas políticas públicas, especialmente na área da assistência social. A Constituição Brasileira afirma que a família é a base da sociedade. Um dos tópicos da agenda do mundo contemporâneo é a discussão sobre o que é família. Não resta dúvida de que ela sofreu e continua sofrendo modificações. Todavia, a despeito das mudanças, há uma pergunta que não se cala: como a família contribui para o desenvolvimento integral da criança e do adolescente? Qual a contribuição da teoria winnicottiana para essa questão?
Winnicott desenvolveu também uma teoria da doença que surge a partir das falhas ambientais. É importante destacar que a natureza das doenças está relacionada com as conquistas que a criança conseguiu ou não fazer antes que o evento traumático ocorresse. As consequências da dissolução da vida familiar, portanto, não se resumem ao abandono e ao desamparo — que, por si sós, já são enormes —, mas também aos seus efeitos sobre processo de amadurecimento das crianças e dos adolescentes.
É importante ressaltar que as famílias não se sustentam soltas, como que flutuando no espaço. Num texto de Winnicott, de 1961, que se refere à amplitude do “segurar” (holding) materno, encontramos que a família dá continuidade a esse “segurar” e que a sociedade “segura” a família. Como se dá esse “segurar” num país como o nosso, tão fortemente marcado pela cultura escravocrata e no qual as desigualdades sociais têm profundidades abissais? Isso nos remete às famílias de origem das crianças e adolescentes que chegam aos serviços de acolhimento, que pertencem, na sua grande maioria, aos estratos mais desfavorecidos da nossa sociedade e que se tornam invisíveis nos processos de acolhimento e de adoção.
O acolhimento de crianças e adolescentes que terminam separados de suas famílias pode ser de natureza institucional ou familiar. Nesta Jornada, em que trataremos de famílias, cabe perguntar: os serviços de acolhimento institucional podem ser tomados como uma família por aqueles que lá chegam? Em que difere o acolhimento institucional do familiar? Embora a legislação determine que se dê preferência ao acolhimento familiar, que ocorre por meio das famílias acolhedoras ou pelas famílias extensas, por qual razão a maior parte dos acolhimentos continua sendo de natureza institucional? Por que algumas pessoas se dispõem a acolher temporariamente crianças e adolescentes em seus lares? Por que algumas desistem de acolhê-las?
Por fim, outra questão importante, diretamente ligada às atividades do Grupo Winnicott de Pesquisa, Estudo e Intervenção com Crianças e Adolescentes em Processo de Adoção: qual o papel do psicanalista no acompanhamento daqueles que estão sendo adotados e dos que estão adotando?
São sobre esses pontos e questões que a III Jornada de Adoção do IBPW se debruçará.
Programação
08h50 | Abertura das salas online |
09h00 | Abertura oficial presencial |
Mesa 1 | |
09h15 – 09h35 | Palestra 1: Conceição Aparecida Serralha Título: A importância da família no amadurecimento |
09h15 – 09h35 | Palestra 2: Saulo Araújo Cunha Título: Para além do abandono e do desamparo: consequências da insuficiência dos cuidados familiares no amadurecimento emocional de crianças e adolescentes |
09h55 – 10h15 | Debate/Moderador: Ilana Rabeh |
10h15 – 10h35 | Intervalo/Coffee Break |
Mesa 2 | |
10h35 – 10h55 | Palestra 3: Fabiana Schiavi Noda Título: Acolhimento institucional: permanência, destinos e desigualdades |
10h55 – 11h15 | Plestra 4: Mônica Rosa Melo Título: Da reedição do trauma do abandono: reflexões sobre o sofrimento psíquico de adolescente marcado pelo abandono adotivo e pela exclusão institucional |
11h15 – 11h35 | Palestra 5: Graciele Feitosa de Loiola Título: As famílias nos processos de acolhimento e adoção: entre (des)amparos e pertencimentos |
11h35 – 11h55 | Debate/Moderador Rafael Carneiro |
Mesa 3 | |
11h55 – 12h15 | Palestrante 6: Neto Picanço de Figueiredo Título: Acolhimento Familiar: Os avanços e desafios para o acolhimento de crianças e adolescentes em família acolhedoras |
Modalidade: Presencial | |
12h15 – 12h35 | Palestra 7: Raquel Fernandes Silva Título: Quando o abrigo é família |
12h35 – 12h55 | Palestra 8: Tatiana Bacic Olic Título: A função do analista no acompanhamento dos processos de adoção |
12h55 – 13h15 | Debate/Moderador: Aline |
13h15 – 13h30 | Encerramento |
Mini Currículos
Conceição Aparecida Serralha
Pós-doutora em Psicologia pela Universidad Argentina John F. Kennedy – UK – Buenos Aires (2018) e pela Universidade Estadual de Campinas-SP (UNICAMP) (2018); possui doutorado e mestrado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007; 2002). Docente aposentada do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFTM (PPGP-UFTM). Psicanalista didata do Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana – IBPW, filiada à International Winnicott Association – IWA. Autora dos livros O ambiente facilitador winnicottiano: teoria e prática clínica e “Não atendo criança”: situações de risco para a não constituição do si mesmo individual. Dedica-se ao atendimento clínico e supervisões clínicas.
Saulo Cunha
Graduou-se em Biologia e Psicologia e obteve o título de Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Atuou como professor e orientador educacional no ensino fundamental e médio em São Paulo e como consultor de programas de atendimento de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. É membro e docente do Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana (IBPW). Como psicanalista, exerce atividade clínica em consultório particular e realiza supervisões de atendimento clínico psicológico e em serviços de atendimento institucional de crianças e adolescentes. É membro do Grupo Winnicott de Pesquisa, Estudo e Intervenção com crianças e adolescentes em processo de adoção, do IBPW. Autor de artigos sobre adoção e apadrinhamento afetivo.
Fabiana Schiavi Noda
Fabiana Schiavi Noda – Psicóloga formada pela USP Ribeiro Preto. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Integrante da equipe de Psicologia da Vara da Infância e Juventude de Itaquera entre 2006 e 2013 e da Vara Central da Infância e Juventude desde 2014.
Mônica Rosa Melo
Psicóloga formada pela USP. Especialista em Psicologia Hospitalar em Hospital Geral no HCFMUSP. Especialista em Psicanálise, teoria e Prática com Crianças e adolescentes, pela USP. Atuação no Ambulatório de Saúde Mental do Mandaqui. Atuação como psicóloga clínica. Atuação como psicóloga judiciária no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), desde 1998.
Graciele Feitosa de Loiola
Assistente Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mestre e doutora em Serviço Social pelo PPGSS da PUCSP. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Famílias – NCAF. Autora do livro: Produção sociojurídica de famílias “incapazes”: do discurso da “não-aderência” ao direito à proteção social
Neto Picanço de Figueiredo
Psicólogo e Mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Analista de Promotoria (Psicólogo) do Núcleo de Assessoria Técnica Psicossocial do Ministério Público de São Paulo – NAT/MPSP. Membro do Movimento Nacional Pró-Convivência Familiar e Comunitária (MNCFC) e integrante do Grupo de Trabalho Família Acolhedora do MNCFC.
Raquel Fernandes Silva
Psicóloga, especialista em psicologia da família pela Faculdade Santíssimo Sacramento – BA. Facilitadora em Justiça Restaurativa pela UNICORP – TJBA. Atuou como Perita do TJBA acompanhando crianças em casa-lar e pretendentes à adoção. Atuou como psicóloga escolar no Colégio João Paulo (sistema montessoriano) em Alagoinhas-BA. Atuou como psicóloga em SAICAS. É aluna do curso de formação em psicanálise Winnicottiana no IBPW. Pesquisadora – bolsista no IBPW. Psicóloga no Boas Novas – Grupo de Apoio à Adoção. Foi coordenadora do Programa Família Acolhedora na Associação Beneficente Santa Fé, programa vinculado ao EI-3 Project (BEIP – Romênia). Foi coordenadora do setor socioassistencial do Lar das Crianças da CIP – Congregação Israelita Paulista. Atualmente coordena o Serviço de Atendimento à Comunidade – SACOM/IBPW, e está como coordenadora acadêmica do IBPW- Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana.
Tatiana Olic
Psicóloga e psicanalista. Mestre em psicologia clínica pela PUC – SP. Com formação pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana (IBPW). Membro do Grupo Wiinicott de Pesquisa, Estudo e Intervenção com crianças e adolescentes em processo de adoção do IBPW. É supervisora de equipes de serviços com foco no atendimento de famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade social.
Resumos
Conceição Aparecida Serralha
Título: A família como ambiente facilitador na teoria do amadurecimento
Resumo: Em texto de 1965, ao utilizar o pronome indefinido “algo” (something) para definir uma família, Winnicott deixa em aberto todas as possibilidades de estruturas, ou configurações, compostas por seres humanos capazes de constituir um meio ambiente facilitador para o desenvolvimento e amadurecimento de um indivíduo. Assim, nesta conferência, pretendo discutir como Winnicott compreendia o ambiente inicial facilitador, como sua compreensão se ampliou ao longo de sua experiência clínica e como ela pode ser aplicada em nossos dias em meio a tantas mudanças sociais.
Saulo Cunha
Título: PARA ALÉM DO ABANDONO E do DESAMPARO: consequências da insuficiência dos cuidados familiares no amadurecimento emocional de crianças e adolescentes
Resumo: Para Winnicott, nascemos com uma tendência inata ao amadurecimento. No entanto, para que essa tendência se concretize, é imprescindível a presença de um ambiente suficientemente adaptado às necessidades da criança e do adolescente em cada etapa de seu desenvolvimento. Herdamos um potencial, mas o amadurecimento vai sendo gradualmente conquistado pela criança e pelo adolescente à medida que contam com os cuidados ambientais adequados. Assim, quando tais cuidados são insuficientes, o processo de amadurecimento pode ser retardado, distorcido ou até mesmo paralisado, sendo que as consequências variam conforme o momento do desenvolvimento em que a experiência traumática ocorreu.
Nesta palestra, que será proferida durante a Jornada dedicada ao tema do acolhimento e da adoção, examinaremos essa questão à luz das separações de crianças e adolescentes de seus pais e de suas famílias, que, por diversas razões, não puderam oferecer os cuidados necessários ao amadurecimento dos filhos. Dessa forma, abordaremos os efeitos dessa ausência no seu processo de desenvolvimento emocional.
Fabiana Schiavi Noda
Título: Acolhimento institucional: permanência, destinos e desigualdades
Resumo: O acolhimento institucional protege crianças e adolescentes em situação de risco, mas o afastamento familiar resulta em prejuízos socioemocionais, devendo ser sempre uma medida provisória e excepcional. A análise quantitativa de acolhidos e desacolhidos no período de dois anos da Vara Central da Infância e Juventude revela desafios relacionados ao tempo de permanência, aos destinos após a saída e às desigualdades raciais e etárias. Quem são as crianças encaminhadas para adoção? E quais dados existem sobre adoções que resultam em retorno ao SAICA? Esses achados reforçam a urgência de políticas públicas que assegurem celeridade, equidade e proteção integral das crianças e adolescentes.
Mônica Rosa Melo
Título: Da reedição do trauma do abandono: reflexões sobre o sofrimento psíquico de adolescente marcado pelo abandono adotivo e pela exclusão institucional
Resumo: Apresentação de caso de um adolescente devolvido aos 11 anos, após 9 anos de adoção, marcado pela sucessão das rupturas em sua vida. Ele expressa, por meio de sintomas e comportamentos, vivências traumáticas ligadas ao abandono e fortes sentimentos de inadequação. O manejo nos SAICAS tendem a respostas centradas no controle, silenciamento e exclusão, que apenas reforçam sua convicção de não ter lugar de pertencimento ou acolhimento.
Diante desse cenário, fundamental investir em estratégias construtivas e na continência ambiental . O caso ilustra a realidade de muitos jovens “sem família e sem SAICA estável”, que circulam por diferentes serviços, vivenciam instabilidade e exclusões, o que agrava sintomas desafiadores e pode precipitar sua inserção no sistema socioeducativo.
Graciele Feitosa de Loiola
Título: As famílias nos processos de acolhimento e adoção: entre (des)amparos e pertencimentos
Resumo: Em breve!
Neto Picanço de Figueiredo
Título: Acolhimento Familiar: Os avanços e desafios para o acolhimento de crianças e adolescentes em família acolhedoras
Resumo: O cuidado e proteção de crianças e adolescentes no Brasil tem se transformado ao longo de sua história. Da caridade e filantropia até o sistema de proteção integral dos dias atuais houve retrocessos e avanços nos serviços e políticas públicas em busca de encontrar possibilidades para crianças e adolescentes em situação de abandono, orfandade ou (mais recentemente) com seus direitos violados.
Nesse contexto, o acolhimento em famílias acolhedoras é uma medida de proteção e cuidado para crianças e adolescentes cujos afetos envolvidos na relação entre acolhedoras/es e acolhida/o são essenciais na função política realizada e possibilita de modo mais efetivo a convivência comunitária em ambiente familiar nos momentos em que as famílias de origem – por diversos motivos – estão impossibilitadas de promovê-los.
Assim, apresento a partir da implementação dessa modalidade de acolhimento da cidade de São Paulo, o percurso dessa política pública ( construção do marco legal; práticas inaugurais; e panorama atual); as experiências do acolher pelas famílias acolhedoras; motivações para permanência ou desistência nessa atuação; e as reflexões e desafios que tais vivências produzem.
Raquel Fernandes Silva
Título: Quando o abrigo é família
Resumo: Em breve!
Tatiana Olic
Título: A função do analista no acompanhamento dos processos de adoção
Resumo: O processo de adoção envolve aspectos emocionais complexos tanto para a criança quanto para os adotantes, sendo assim, o acompanhamento psicológico desempenha um papel importante ao longo de todo o percurso. A teoria de Winnicott, especialmente suas ideias sobre o desenvolvimento emocional e a importância do ambiente na constituição do si-mesmo, oferece importantes contribuições para essa atuação. Muitas crianças adotadas vivenciaram rupturas e traumas que afetam sua capacidade de confiar no outro, sendo necessário criar um novo ambiente que favoreça seu desenvolvimento psíquico. O psicólogo atua desde a habilitação dos pretendentes, avaliando suas motivações e capacidades parentais, até o período pós-adoção, auxiliando na construção do vínculo familiar.
Inscrição
Valores:
Filiado: R$70,00
Estudante: R$50,00
Profissional: R$100,00
Profissionais de Serviços de Acolhimento – Inscrição por grupo de 3: R$80,00
Profissionais de Serviços de Acolhimento – Inscrição por grupo de 5: R$100,00
Local
Online
Rua João Ramalho, 146 – Perdizes. São Paulo, SP