Winnicott’s Theory Maturational Processes, by Elsa Oliveira Dias

Prefácio à edição chinesa

É com grande satisfação que escrevo este prefácio para a edição chinesa de meu livro sobre a teoria do amadurecimento de Winnicott. Tenho bons motivos para tanto. O principal é o fato de esta edição me oferecer a oportunidade de apresentar ao público chinês a “espinha dorsal” do pensamento winnicottiano. 

Winnicott era um pediatra que subordinou toda  a sua obra ao propósito de elaborar uma teoria dos processos maturacionais que explicasse as condições pelas quais um bebê, imaturo e altamente dependente dos cuidados ambientais no início da vida, torna-se, aos poucos, caso receba cuidados satisfatórios, uma pessoa integrada num eu, capaz de estabelecer relações com a realidade externa, de cuidar de si mesmo, de responsabilizar-se em grande parte pela própria vida, e de socializar-se; torna-se capaz, ainda, muitas vezes, de usufruir ou mesmo de dar uma contribuição ao acervo cultural da humanidade, sentindo que a vida, a despeito de conter problemas e sofrimentos, vale a pena ser vivida. 

Para melhor exercer a sua tarefa de pediatra, Winnicott foi buscar conhecimento e experiência na psicanálise, tendo se tornado psicanalista de crianças e, simultaneamente, de adultos psicóticos. Percebeu logo que podia usar, na sua clínica pediátrica, o que aprendia com os fenômenos regressivos que observava em sua clínica com adultos psicóticos e, igualmente, que podia usar no tratamento de psicóticos o que aprendia com as mães e seus bebês. Acabou exercendo o que ele próprio chamou de psiquiatra infantil com base em uma psicanálise radicalmente modificada por ele mesmo. Essa modificação se baseia, no essencial, em três pontos: 1) numa teoria do amadurecimento que passa a servir como teoria-guia no entendimento das patologias maturacionais e das práticas clínicas, e da qual faz parte uma teoria da instintualidade; 2)  a valorização do fator ambiental, sobretudo o inicial, na constituição do indivíduo humano, desde o seu nascimento e 3) a substituição dos conflitos internos resumidos no Complexo de Édipo e privilegiados pela psicanálise tradicional pelos problemas vividos no colo da mãe e nos “círculos cada vez mais amplos” que substituem esse colo ao longo do amadurecimento, tais como a família, a escola e a sociedade em geral. 

A teoria winnicottiana dos processos maturacionais, por conceituar e descrever, a partir do absoluto início, as diferentes tarefas, conquistas e dificuldades que fazem parte do processo de amadurecer em cada um dos estágios da vida, serve de guia tanto para a compreensão dos fenômenos da saúde o que propicia que melhor se aproveitem os recursos saudáveis de um dado indivíduo – como para diagnosticar e tratar, o mais precocemente possível, as dificuldades não resolvidas de vários estágios maturacionais.

Formulada nesses termos, a patologia maturacional winnicottiana traz uma contribuição fundamental para a clínica psicanalítica e psicoterapêutica, orientando o diagnóstico e dando um norte para o terapeuta. Este deve poder estar ciente da idade emocional em que o paciente se encontra num dado momento da relação terapêutica, seja para dar-se conta da imaturidade ali exposta, seja para acompanhar o paciente nas diferentes etapas do seu amadurecimento, incluindo fases de grande dependência. Esse horizonte favorece o tratamento dos casos chamados difíceis, que não podiam ser abrangidos pela psicanálise tradicional. Mas não apenas. Essa teoria permite, ainda, repensar procedimentos terapêuticos em vários outros campos da saúde – a pediatria, a psiquiatria infantil, a fonoaudiologia, a enfermagem, o serviço social psiquiátrico, a terapia ocupacional –, assim como orientar o que compete à assistência social e à educação em termos de cuidados que favoreçam o amadurecimento. Traz também uma preciosa contribuição a todos os que se envolvem em políticas de prevenção. 

Tendo escrito para diversos públicos, os artigos de Winnicott, reunidos em livros, tratam de assuntos esparsos, e nem sempre a unidade de seu pensamento fica evidente. O que pretendi com este livro, que ora é publicado em chinês, foi fornecer uma leitura sistematizada da sua obra, deixando clara a unidade de seu pensamento e apresentando de forma unificada e abrangente a sua contribuição central, não só à teoria e à clínica psicanalítica, como a vários outros campos da saúde. Parecia-me, já na ocasião em que o livro foi editado pela primeira vez, em português, que uma apresentação articulada do pensamento de Winnicott em torno de um dos seus principais eixos, a teoria dos processos maturacionais, facilitaria a compreensão e, em consequência, a recepção de sua perspectiva téorica, altamente complexa e inovadora, da qual decorre uma clínica de grande alcance e eficácia. 

Naquela ocasião, eu visava à divulgação, mas tinha também um outro objetivo: chamar a atenção do público especializado para o fato de Winnicott, ademais de ser um clínico incomum, ter desenvolvido um corpo teórico unitário e consistente, que se configura como um passo decisivo no progresso da psicanálise e que pode ser visto como um novo paradigma dessa disciplina. Sua obra, apesar de dar a impressão de soltura, ou de uma certa dispersão, tem uma organização interna e uma coerência ímpar, de modo que é possível extrair dela, sem grande esforço, uma visão psicanalítica radicalmente renovada da saúde, da doença e da clínica, além de ensinamentos de importância capital aplicáveis a áreas não estritamente clínicas.

Essas teses receberam recepção favorável no Brasil de um grupo significativo de profissionais altamente qualificados, permitindo a criação de instituições, em particular do Centro Winnicott de São Paulo (CWSP), em 2003, e da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW), em 2005, com o objetivo de promover ensino, pesquisa e publicações nas áreas de estudos winnicottianos. O ensino foi implementado com o Curso de Formação em Psicanálise Winnicottiana, hoje ampliado para abranger outras modalidades da clínica praticadas ou projetadas por Winnicott, denominado, por esse motivo, Curso de Formação Winnicottiana. Recentemente, a gerência desse curso ficou a cargo do Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana (IBPW), fundado em 2015. As pesquisas realizadas pelo grupo foram apresentadas em uma série de eventos dedicados a Winnicott em diferentes lugares no Brasil e em outros países. As publicações das mesmas foram assumidas pela DWW Editorial, editora da SBPW. Atividades exitosas e inovadoras desenvolvidas pela Escola Winnicottiana de São Paulo atraíram atenção internacional, o que tornou possível a fundação, em 2013, em São Paulo, da International Winnicott Association (IWA). 

Não escondo minha enorme satisfação em ver agora divulgados esses desenvolvimentos nas, para nós, brasileiros, remotas terras da China. Com isso fica fortalecida a tendência frutífera da globalização do trabalho científico, que o torna livre das inércias muitas vezes encontradas em centros de pesquisa tradicionais, adversas às ideias inovadoras. Faço votos, ainda, de que meu livro venha a contribuir para o estreitamento das relações culturais entre o Brasil e a China. Essas novas relações estão ainda no seu começo, mas elas terão, ao que tudo indica, desenvolvimentos futuros significativos nas mais diferentes áreas e modalidades.

Há uma história feliz e bem-sucedida por trás dessa publicação. Tudo começou quando Dr. Ling Sunang, do Y Kang Center do Beijing Huilongguan Hospital, convidou a mim e ao meu marido, o filósofo Zeljko Loparic, num momento em que  viajávamos a passeio por Beijing, para falarmos de Winnicott a um grupo de psiquiatras e terapeutas colegas dele. Foi um breve seminário acompanhado de uma supervisão. No almoço que nos foi oferecido em seguida, Dr. Zhao Chengzhi, um dos membros do Y Kant Center, nos consultou sobre a possibilidade de desenvolvermos uma atividade constante – um Training Course –  sobre Winnicott no Huilongguan Hospital. Seis meses mais tarde, já de volta ao Brasil, fomos  contatados e convidados a dar um curso intensivo semestral, com duração de 3 anos, oferecido nos meses de maio e novembro, para essa mesma turma composta de terapeutas que vêm de vários lugares da China. Aceitamos prontamente o convite. O curso foi realizado entre 2014 e 2016, sendo reconhecido como um CME curso. Em 2017, o curso foi reprogramado para outro período de dois anos. Por ter despertado grande interesse do público, foi criada uma nova turma com o mesmo programa básico. A turma antiga se consolidou e seguimos em frente num nível mais avançado. 

Foi extremamente gratificante para nós o acolhimento e a dedicada atenção dada ao trabalho de ensino teórico e clínico que realizamos.  Ficou claro que, embora esses profissionais tivessem seguido outros cursos de formação em práticas psicoterápicas diferentes das de Winnicott, tais como as várias modalidades da psicanálise tradicional (freudiana, kleiniana ou lacaniana) ou a psicologia individual junguiana, os participantes reconheciam prontamente que tais abordagens não abrangiam alguns dos distúrbios mais severos com os quais eles se defrontavam no dia a dia do hospital e que, além disso, o programa winnicottiano de múltiplas modalidades terapêuticas, incluindo as institucionais, oferecia alternativas frutíferas. 

Foi também uma interessante e grata surpresa perceber, pelos relatos clínicos supervisionados, a sensibilidade clínica e humana dos terapeutas envolvidos no curso. Fiquei gratificada ao constatar o quanto Winnicott tem razão ao afirmar que a natureza humana é a mesma em qualquer parte do mundo e que ela não se altera fundamentalmente desde há muito tempo, não importando  as épocas ou as diferenças culturais envolvidas. Pude constatar, nas supervisões, que as dificuldades apresentadas pelos pacientes chineses são basicamente as mesmas que as dos pacientes brasileiros, sulamericanos, ou mesmo europeus, quando entendidas na perspectiva de Winnicott. A questão da constituição e manutenção do si-mesmo criativo, por exemplo, é básica e recorrente em qualquer parte. As dificuldades relativas às relações ambientais – o colo da mãe, a família, a escola, a sociedade da vida adulta –  têm o mesmo peso e complexidade; também tem igual premência a necessidade de amadurecer e socializar-se sem sacrifício demasiado da espontaneidade pessoal. Naturalmente, existem culturas que exigem mais concessões à espontaneidade do que outras, mas embora isso pese, a possibilidade, ou não, de fazer frente a essas requisições ainda remete às relações com o  ambiente original. Nenhuma dessas dificuldades pode ser reduzida a um fator orgânico, nem tampouco aos conflitos internos da psicanálise freudiana ou kleiniana, ou à falta de inserção na ordem simbólica de Lacan, ou às irrupções do inconsciente coletivo de Jung. Assim, o nosso ensino de Winnicott na China continental dos dias de hoje tornou-se, de modo inesperado para nós, um grande laboratório para o teste e o desenvolvimento das ideias de Winnicott.  

A recepção positiva do nosso trabalho na China reverteu em desenvolvimentos institucionais significativos. No Beijing Huilongguan Hospital foi criada, em 2016, a Chinese Winnicott Association, que hoje é membro da International Winnicott Association (IWA), assim como o Grupo Winnicott da Universidade de Shanghai e o Beijing Mental Health Facilitating Center. Este último, desde 2014, dá uma assistência e uma contribuição de extrema importância na organização dos cursos do Huilongguan Hospital. Vale ainda mencionar que esse Centro propôs ao IBPW uma outra atividade de ensino particularmente valiosa: a realização de um Curso sino-brasileiro de formação plena em psicanálise winnicottiana, segundo os mesmos moldes praticados na Escola winnicottiana do Brasil, dirigido aos profissionais de diferentes regiões da China, com o objetivo de capacitar futuros formadores em psicanálise winnicottiana. Esperamos que esse curso de formação, que teve início em 2017 e está em pleno andamento, venha a gerar uma primeira turma de terapeutas em condições de ensinar a teoria e as práticas winnicottianas em diferentes ambientes, em centros de ensino e pesquisa, dando continuidade ao nosso trabalho e assegurando, assim, a implantação e consolidação da clínica winnicottiana na China continental.

O presente livro, A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott, consiste na primeira parte de minha tese de doutorado, defendida em 1998, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com o título A teoria das psicoses de D. W. Winnicott. Foi aproximadamente nessa época que se iniciou, em São Paulo, um grupo de pesquisa que, sob orientação do filósofo Zeljko Loparic, dedicou-se a pesquisar a filosofia da psicanálise, em especial, o pensamento de Donald Winnicott. Foi também nessa ocasião que corrigi e preparei, para publicação, esta primeira parte da tese, que versava sobre a teoria winnicottiana dos processos maturacionais. O livro foi publicado pela primeira vez no Brasil, em 2003, pela Imago Editora. A recepção muito favorável do público brasileiro fez com que ele se tornasse obra de referência nos estudos winnicottianos, tanto em instituições psicanalíticas como em outras, relacionadas a cuidados e desenvolvimento, assim como nas acadêmicas. À essa primeira edição, que teve várias reimpressões, seguiram-se publicações feitas pela DWW Editorial (editora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana): uma 2ª edição, em 2012, uma 3ª, em 2014, e uma 4ª em 2017. Ainda em 2012, o livro foi traduzido para o espanhol com o título La teoria de la maduración de D. W. Winnicott e disponibilizado em forma eletrônica. Uma tradução para o francês está em curso e, com sorte, deverá estar pronta no final de 2020 ou começo de 2021. Tudo isso evidencia uma crescente recepção internacional do livro e do programa de pesquisa que ele segue. A tradução para o inglês, pela Karnac Books, veio à luz em junho de 2016, com o título Winnicott’s Theory of the Maturational Processes. É nessa edição inglesa que se baseia a presente tradução chinesa. 

Meu anseio com a publicação desta edição chinesa do livro é ver, também na China, a divulgação do pensamento de Winnicott cair num solo fértil e contribuir para instrumentalizar os profissionais dedicados ao tratamento de pessoas com distúrbios maturacionais, assim como aqueles que promovem, nas áreas de saúde, políticas de prevenção. O maior motivo dessa esperança reside no fato de a tradução do meu livro ter sido feita por um grupo de tradutores ligados ao Beijing Mental Health Facilitating Center especializados em verter os textos de Winnicott para o mandarim. Dr. Zhao assumiu a coordenação dessa equipe de tradutores e eu quero agradecer imensamente a ele por todo esse trabalho. Agradeço igualmente a todos os que se envolveram na realização desse difícil trabalho de tradução.  Espero, ainda, que, ao assumir o tremendo esforço de achar termos e expressões correspondente aos termos e expressões winnicottianos, essa equipe acabe criando um vocabulário winnicottiano apurado, em chinês, o que facilitará a tradução futura das suas obras completas e favoreça, dessa maneira, a compreensão precisa das práticas terapêuticas por ele praticadas e recomendadas. 

Elsa Oliveira Dias
São Paulo, fevereiro de 2018

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