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O envelhecimento e a capacidade para morrer

Uma das coisas importantes que Winnicott diz, nas suas obras, é que o sentido da morte somente se revela em contraste com o sentido da vida. Ou seja, que é somente a pessoa que tem uma existência real e plena, por ser integrada no tempo e no espaço, quem pode apreender o sentido da morte. Eu explico o porquê: é a experiência espacial que nos dá a noção de limite. Exemplifico: a experiência do espaço interior e exterior à minha pele é que constitui o limite entre o eu e o não-eu: o que está dentro da pele é o eu; o que está fora é o não-eu. Por outro lado, é a experiência temporal que nos dá a noção de finitude. Exemplifico: uma criança que chora de dor, porque se machucou, se você diz: “Vai passar!”, ela se acalma de imediato, porque entende que a dor é finita, vai passar. Dessa forma, somente quem tem a experiência de tempo e de espaço pode significar a morte como finitude, limite da vida.
Assim, quanto mais uma pessoa tiver desenvolvido o seu potencial, sentindo-se, assim, uma pessoa realizada na vida, menor será o medo da morte. Ela sentirá, provavelmente um incômodo com a doença, a dor, a hospitalização, as intubações, bem como com o trabalho que dará aos familiares, mas menos com a morte em si. Esta será sentida como um descanso, um repouso, um retorno à quietude, ao silêncio, à solidão essencial da qual emergimos um dia, ao nascer.
E quando falo em realizações na vida, não estou falando de realizações puramente egóicas. O homem saudável é capaz de identificações cruzadas, ele se sente responsável pelo outro, seja esse outro humano, animal, vegetal, mineral ou, num sentido mais amplo, planetário; então, são realizações que implicam o planeta como um todo, já que o bem-estar do eu implica, necessariamente, o bem-estar do outro.
Há pacientes que jamais atingiram uma integração espaço-temporal no seu nível de amadurecimento, em função de falhas ambientais profundas primitivas. Eu tenho uma paciente que me diz: “Eu vivo num espaço bidimensional, não existe a terceira dimensão. Você me vê falando desse corpo, mas eu não me sinto habitando esse corpo; eu vivo como um fantasma desencarnado, pairando no espaço! E, quando uma angústia me invade, é uma angústia infinita, que nunca vai terminar! Então, se eu não fizer alguma coisa, é o colapso total; tudo vai desabar!
Essas são pessoas que vivem uma espécie de morte-em-vida. Para elas, quando a morte biológica acontece, ela somente vem dar concretude a essa morte-em-vida.
Portanto, é preciso distinguir o medo do colapso do sentido existencial da morte. É somente do contraste entre a vida plena de sentido e de realidade e o seu desdobramento finito, como não-vida, que o sentido existencial da morte pode advir.
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Alfredo Naffah Neto
11 de junho de 2021

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