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A RECEPÇÃO DE WINNICOTT

Winnicott – seus escritos, seu legado intelectual, seu último apelo – continua sendo o tópico mais valioso para todos nós. Essa herança é desafiadora.
As obras completas de Winnicott – The Complete Works – só foram publicadas na Inglaterra recentemente, em 2017, 46 anos após sua morte, e ainda não foram discutidas ou resenhadas por membros da IWA (International Winnicott Association). Não há traduções disponíveis das Complete Works e as de suas outras publicações são, não raramente, apenas parciais e frequentemente insatisfatórias, visto que muitos tradutores têm pouca ou nenhuma familiaridade com a linguagem de Winnicott.
A transmissão do legado intelectual de Winnicott seguiu uma trajetória ainda mais conturbada. Não resta dúvida de que Winnicott é uma das grandes figuras mais depreciadas da história da psicanálise desde Jung. Além disso, existe entre nós e nas comunidades de saúde em geral uma profusão estonteante de Winnicotts. Há Winnicott, o teórico insuficiente, o Winnicott idiossincrático, o Winnicott literário (ficcional), o Winnicott rabiscador, o Winnicott da nebulosa marginal, o Winnicott do Middle Group, bem como o Winnicott linkado a Freud, a  Ferenczi, a Bion, a Lacan ou hifenizado de qualquer outra maneira, sem falar do Winnicott da mecânica quântica e da nanotecnologia, do Winnicott das mancadas (“Vamos reescrever tudo o que ele falou errado!”) e do Winnicott objeto subjetivo (“Criemos e recriemos suas ideias a nosso bel-prazer e sejamos ele!”). Por outro lado, há também o Winnicott que se ergue em próprias pernas: o Winnicott científico, o Winnicott dos processos maturacionais, o Winnicott dos ambientes facilitadores, o Winnicott revolucionário, o Winnicott clínico paradigmático, o pensador holístico discreto que contribuiu insights essenciais para a filosofia e a religião, e que é para alguns de nós, e de tantas maneiras, a figura mais importante no campo desde Freud.
É inegável que todos esses Winnicott estão entre nós. Alguns deles são ensinados a nossos alunos. Vários grupos da IWA ainda o colocam bem no meio entre Anna Freud e Melanie Klein, enquanto outros o ensinam como um dentre muitos. Ainda outros atribuem a Winnicott um lugar especial – o lugar de um revolucionário singular e resoluto – e se valem de ferramentas conceituais requintadas para transmitir essa ideia aos estudantes.
E, sim, há também o apelo feito por Winnicott nos últimos dias de vida: “O que peço é uma espécie de revolução em nosso trabalho. Devemos reexaminar o que fazemos”. O que está em jogo neste momento é se conseguimos efetivamente ouvir seu apelo, se somos capazes de entender o tipo de revolução que ele instava e em que medida estamos prontos para segui-lo.
Essa é a recepção de Winnicott que nós, membros da IWA, temos de administrar. Em muitos países, as traduções de Winnicott não são confiáveis ​​para estudo e pesquisa. E, em todo o mundo, deparamos um Winnicott teoricamente multifacetado e provocador, como confirma a história recente da recepção de seu legado. Restaurar um único e verdadeiro Winnicott está fora de questão. O conflito de interpretações permanecerá e a IWA nada pode fazer a respeito: não existe nem pode existir uma interpretação de Winnicott endossada pela IWA. Cada grupo membro pode ter, e é altamente recomendável que tenha, própria interpretação, projetos de pesquisa e programas de ensino, e desenvolva suas próprias atividades, tais como eventos e publicações – que, é claro, poderão vir a receber o aval da IWA. Ao fazer isso, porém, os grupos não poderão senão competir pelo legado de Winnicott. O apelo de Winnicott por uma revolução nos força a escolhas difíceis: estaria ele instando uma mudança do paradigma científico ou, no outro extremo, lançando uma proposta anarquista de “vale tudo”? Seja como for, nada impede que os grupos continuem construindo suas tradições próprias desde que, sem sectarismo, permaneçam abertos a discussões e ao diálogo.
A melhor coisa que a IWA pode fazer é propiciar o ambiente favorável imprescindível para interações frutíferas em grupo. Na verdade, só sobreviveremos como uma associação com objetivos intelectuais e práticos compartilhados se nos colocarmos acima das tentações da ortodoxia e evitarmos compulsões à militância. Visto como Winnicott utilizou e até presidiu a British Psychoanalytic Society, parece-me que ele concordaria com isso. De qualquer maneira, essas ideias, que consagram o pluralismo e a tolerância e rejeitam a dissolução do estudo da natureza humana em modismos retóricos, foram adotadas como princípios orientadores por nós que fundamos a IWA, a instituição winnicottiana internacional central a dar cobertura a todas as demais instituições e grupos de caráter winnicottiano.
Z. Loparic
14 de junho de 2021

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